Como escolher um livro

Sexto encontro do curso do projeto Leituras em Conexão discutiu critérios na hora de selecionar as leituras feitas em sala de aula


     

Acontece • Segunda-feira, 20 de Agosto de 2018, 08:00:00

 
Sábado passado ocorreu mais um encontro do curso promovido pelo projeto Leituras em Conexão. O curso para formação de articuladores de leitura, voltado para professores da rede pública e bibliotecários, ocorre concomitantemente em oito escolas públicas de Belo Horizonte e na Secretaria Municipal de Educação (SMED) da capital mineira, contemplando as nove regionais da capital.
 
No encontro de agosto, fomos na Escola Municipal Padre Francisco de Carvalho Moreira, na região leste de BH, acompanhar as atividades do sexto encontro do curso. Quem dá o curso na regional é a professora de Língua Inglesa e Língua Portuguesa e Literatura do IFMG Marilia Ribeiro.
 
Mitos sobre leitura literária
 
O encontro do dia 18 foi dedicado a pensar sobre a questão da seleção de obras literárias para acervo. Para discutir isso, foram problematizados antes, de acordo com o livro das professoras Ana Carolina Carvalho e Josca Ailine Baroukh, oito mitos escolares sobre a leitura literária.   
 
O primeiro mito, para as autoras, é o de que “é melhor contar que ler” histórias para as crianças pequenas. Esse mito consiste em acreditar que a leitura para crianças menores pode ser chata e que é preciso contar encenando, usando gestos, para envolver as crianças. Por trás desse mito, está a ideia de que elas têm menor concentração e de que as narrativas escritas são muito complexas para elas. As autoras defendem que é importante para a criança ter contato com material escrito, pois ela começa a compreender uma ideia de permanência, já que os textos dos livros continuam os mesmos.        
 
O consenso de que “livro na mão de criança some ou estraga” é o segundo mito do livro. Marilia explicou a formação do leitor depende dessa interação física com o livro, e as professoras cursistas concordaram, refletindo que esse mito talvez tenha surgido porque na época em que elas eram estudantes não havia a grande quantidade de livros que há hoje nas escolas, levando assim a uma proteção maior dos livros. 
 
O terceiro mito é o de que na Educação Infantil é preciso oferecer livros fáceis. Isso tem relação, Marilia explicou, com nossa concepção de criança, que muitas vezes nos leva a percebê-las ainda como seres incompletos, no sentido de que não são adultos ainda. Isso refletiu também na forma como a própria literatura infantil foi encarada por muito tempo, e ainda é por muitos, como literatura menor. A professora formadora e as cursistas discutiram a limitação que indicar faixas etárias para livros traz e refletiram sobre a exploração de temas mais difíceis com crianças, como morte.   
 
O quarto mito tem a ver justamente com as temáticas escolhidas, uma ideia de que é “necessário poupar as crianças dos horrores do mundo”.  Assim, existiriam temas que não deveriam ser abordados com crianças. Para Marilia e as professoras, há extremos complicados, mas no geral é mais importante se preocupar com a forma como o tema será discutido.
 
“As crianças gostam dos livros coloridos” é o quinto mito. Marilia explica que os livros podem ser, mas não precisam ser coloridos. Nisso, entram também em questão livros que vêm com outros atrativos, como brinquedos, o que muitas vezes é uma estratégia mercadológica. As autoras do livro defendem que é importante ampliar o repertório das crianças, trazendo diversos livros para elas. Marilia discute a diferença entre ilustrações, apontando que as mais ricas são as que dialogam com o conteúdo verbal e produzem sentidos, não apenas ilustrando o que foi dito no texto.
 
Como sexto mito as autoras trazem a ideia de que “conversar sobre o livro é pouco”, sendo necessário sempre haver alguma atividade após a leitura, resultando em um produto. Para as autoras, discutir sobre as impressões das crianças também é importante, pois isso faz parte da experiência de leitura. “Falar sobre o texto é de certa forma voltar a lê-lo”, afirmam Ana Carolina e Josca.
 
O sétimo mito é o de que “quem escolhe a leitura é o professor”, pois seria quem melhor escolheria. Envolver as crianças na escolha, refletiu Marília, talvez seja uma forma de torná-las leitoras mais ativas. Assim, a escolha não precisaria partir apenas dos professores. 
 
Por último, as autoras apontam como oitavo mito a ideia de que “ler é sempre prazeroso”. Marília aponta que muitas vezes a leitura pode provocar tédio, incômodo, e muitos outros sentimentos que não vão ao encontro da idealização de que a literatura sempre provoca prazer. Essa visão, explica Marília, está atrelada também a uma tentativa de “segurar o lugar da literatura”.
 
Como escolher: eis a questão
 
Depois de discutir os mitos que muitas vezes ditam as escolhas de livros das professoras, Marília explicou as funções da literatura infantil e juvenil, segundo a pesquisadora Teresa Colomer, que seriam iniciar o acesso ao imaginário compartilhado por uma sociedade, desenvolver o domínio da linguagem e oferecer uma representação articulada do mundo que sirva como instrumento de socialização.
 
Por fim, Marilia discutiu com as professoras cursistas critérios para a escolha de livros. Para os formadores do Leituras em Conexão, há quatro parâmetros principais, que são: endereçamento, temática, texto verbal e projeto gráfico-editorial. 
 
O endereçamento é pensar qual é o público-alvo, considerando faixa etária, repertório e contexto sociocultural. A temática se resume a escolher os assuntos a serem trabalhados, pensando na importância de quais trazer. O texto verbal deve ser analisado pensando na história e na linguagem, verificando suas nuances e estratégias. O projeto gráfico-editorial inclui o material do livro, a diagramação, a escolha de ilustrações e cores, o formato, a fonte e os paratextos. 
 
Após a discussão desses critérios, Marilia propôs uma atividade em que as professoras, em duplas, analisaram livros selecionados pela formadora a partir dos parâmetros estabelecidos anteriormente. 
 
O projeto
 
O Leituras em Conexão: Formação de articuladores de leitura das Escolas Municipais de Belo Horizonte é um projeto da Secretaria Municipal de Educação (SMED) de Belo Horizonte desenvolvido em parceria com o Ceale.
 
A proposta surgiu a partir da percepção da necessidade de um melhor preparo dos professores para trabalharem com os livros disponíveis nas bibliotecas das escolas da rede pública. Com isso, a intenção é apoiar políticas públicas de incentivo à leitura, levando ao conhecimento dos educadores os projetos na literatura que estão em vigor e tudo o que o governo oferece em termos de material de apoio para o ensino literário, como as bibliotecas e acervos de livros.
 
O curso pretende abordar o planejamento de ações para incentivar a leitura nas bibliotecas escolares, o melhor aproveitamento dos acervos literários, além de oficinas de leitura, abordando fundamentação teórica e a prática também. Ao final do curso, os projetos desenvolvidos serão expostos em local público e compartilhados em redes.
 
Jogo Rápido
 
Algumas das trocas realizadas entre as professoras no encontro.
 
- Ouça aqui um poema de Flávio Aguiar lido por Marilia.
 
- Livros indicados pelas cursistas: O pato, a morte e a tulipa e A parte que falta.