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Semântica

Autor: Rodolfo Ilari,

Instituição: Universidade Estadual de Campinas-UNICAMP / Instituto de Estudos da Linguagem-IEL,

Como usuários da língua, lidamos o tempo todo com mensagens que, além de uma forma (isto é, os sons que ouvimos ao telefone ou os dizeres que lemos num cartaz), têm também um significado (por exemplo, um cartaz de “Cuidado, escola!” avisa o motorista de que há uma escola por perto, e pede que ele guie com mais cuidado).

O trabalho da semântica consiste em explicar o significado dessas mensagens, e isso pode ser feito, ao menos em parte, olhando para as palavras que as compõem. Por exemplo, para entender a frase “Zezinho voltou para casa com um galo”, precisamos saber que galo significa ora o inchaço que aparece na nossa cabeça quando a batemos numa superfície dura, ora o galináceo cuja fêmea é a galinha.

Para explicar as palavras, podemos colocá-las em séries, do tipo gato-felino-mamífero, canela-perna-corpo, chato-desagradável-mofino, grande-volumoso-enorme-gigantesco, encher-esvaziar e muitas outras. Essas séries, às quais chegamos de maneira intuitiva, baseiam-se sempre em alguma relação (por exemplo, a classe dos gatos se inclui na dos felinos, e esta na dos mamíferos; a canela é parte da perna, que é parte do corpo, etc.); essas relações são semânticas, e têm muito a nos ensinar sobre o significado das palavras.

Podemos também explicar as palavras por meio de definições. Uma definição é uma pequena fórmula em que aparecem 1. a palavra a ser explicada, 2.o verbo ser e  3. uma espécie de tradução que utiliza outras palavras da língua (por exemplo: “um alferes era um oficial abaixo de tenente”).  Mais de uma definição é necessária quando a palavra tem mais de um significado (como no caso de galo e de muitas outras – pense-se em “decorar o quarto”/ “decorar a lição”,  “tocar o teto” / “tocar violão” etc.).

Sendo possível usá-las, as definições constituem um recurso precioso; por isso os dicionários, que reúnem milhares delas, constituem um importante auxiliar dos profissionais da linguagem. Mas certas palavras (as chamadas “palavras de classe fechada”, ou seja, os artigos, as preposições e as conjunções) são difíceis de definir – não iremos muito longe se tentarmos completar frases como “se é ...” ou “uai é...”. Nestes casos, o melhor a fazer é explicar as frases que contêm essas palavras, procurando esclarecer o que pretendiam as pessoas que usaram se e uai.

Frases como “O gato comeu o rato” e “O rato comeu o gato” contêm as mesmas palavras, mas têm sentidos diferentes. Isso mostra que a organização da frase (a sintaxe) também afeta o significado. Cabe explicar como isso acontece, examinando, por exemplo, os efeitos de completar o verbo por meio de termos integrantes ou de aplicar aos substantivos os artigos ou outros determinantes. É tarefa da semântica explicar como essas operações afetam o sentido das frases.

Mobilizamos nossas capacidades semânticas sempre que lidamos com mensagens verbais, coisa que, na vida moderna, acontece continuamente. Por isso a escola teria interesse em dar às questões do sentido e da interpretação uma atenção maior do que tem dado. Nesta área, mais do que em qualquer outra, vale o principio de que se pode aprender brincando. É possível ensinar semântica lançando à classe desafios do tipo “Pensem em cinco nomes de pássaros” ou “Excluam o objeto que não combina”, ou mesmo jogando palavras cruzadas. Além disso, muitas anedotas, mais ou menos inocentes, baseiam-se no duplo sentido de uma palavra ou de uma construção sintática: rir um pouco e refletir em seguida sobre a anedota (por exemplo, a do disco voador: “Havia um camarada que era como um disco-voador: baixo, chato e ninguém acreditava nele”) pode ser o começo de uma atitude de atenção para com as ambiguidades e sutilezas do significado, que o aluno levará consigo pela vida toda.


Verbetes associados: Campo semântico, Efeitos de sentido, Referente, Sentido, significado e significação, Signo linguístico, Sintaxe


Referências bibliográficas:
CANÇADO, M. Manual de Semântica: noções básicas e exercícios. São Paulo: Contexto, 2013.
FERRAREZI, C. e BASSO, R. M. Semântica / semânticas: uma introdução. São Paulo: Contexto, 2013.
ILARI, R. Introdução à Semântica: brincando com a gramática. São Paulo: Contexto, 2001.
ILARI, R. Introdução ao estudo do léxico: brincando com as palavras. São Paulo: Contexto, 2003.
ILARI, R. e GERALDI, J. W. Semântica. São Paulo: Ática, 2003.

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