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Regras ortográficas

Autor: Heloísa Rocha de Alkimim,

Instituição: Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita-CEALE,

Regras são generalizações que regulam ou regem certos fatos ou situações; didaticamente, elas são trabalhadas com o fim de padronizar comportamentos alinhados com o que preceituam.

As regras ortográficas referem-se à normatização da escrita de palavras a partir de fatos observados na língua. A ortografia é, pois, uma convenção que tem de ser obedecida. O estudo das regras ortográficas no ambiente escolar, em geral, acontece quando os aprendizes já demonstram ter compreendido que as unidades menores da fala são representadas por letras, ou seja, já perceberam o princípio alfabético do sistema de escrita da língua portuguesa. Nessa fase do processo de alfabetização, recomenda-se um trabalho mais sistemático das relações entre fonemas e grafemas, visando a chegar ao domínio da ortografia do português.

O ensino e a aprendizagem dessas regras (leia-se, implicitamente, da ortografia) não são fáceis, tendo em vista que o nosso sistema linguístico não é um sistema fechado, ou seja, não é um sistema transparente de correlações biunívocas (termo a termo) entre letras e sons. Por exemplo, há regras absolutas, das quais não se apresentam exceções, como a obrigatoriedade de se acentuarem todas as proparoxítonas, ou de empregar “m” antes de “p” e “b”, e “n” antes de outras letras consoantes, para indicar a nasalidade da vogal que as antecede. Mas a acentuação de paroxítonas tem uma variedade de regras bem maior do que a acentuação das proparoxítonas e o emprego da letra “m” pode variar conforme a situação: no início de sílaba, ela tem um som próprio, como em “mato” ou “cometa”, e não mais indica o som nasal da vogal; isso mostra também que  a posição dessa, e também de outras letras, pode mudar o seu valor fonético, o que terá implicações para o processo de leitura.

Além disso, há sons com um leque maior de registros, dificultando a formulação de uma só regra. Por exemplo, o fonema /s/ tem várias maneiras de ser representado: russo, caroço, conserto, concerto, excerto, calça, falsa, havendo diversas justificativas para a escolha do grafema. Do mesmo modo, há letras que representam sons diferentes, como o “x”: táxi, exato, vexame. O professor deve estar atento às idiossincrasias do sistema, considerando os erros mais recorrentes entre os alunos e buscando exemplos que possam ser discutidos, a fim de conseguirem concluir e fazer alguma generalização, ressaltando-se que certos registros podem ser garantidos por regras, outros têm de ser aprendidos, praticamente, um a um. Isso significa dizer que em alguns casos será possível apelar para o raciocínio amparado nas regras que favorecem as generalizações e, em outros casos, será necessário desenvolver estratégias para a memorização.

Ressalta-se também que as regras para leitura nem sempre coincidem com as de escrita. Por exemplo: a letra “s”, posicionada entre vogais terá sempre o som de “z”, na leitura; porém, na escrita não se pode usar só a letra “s” nesse contexto. Vejam-se as palavras “pezinho” e “exagero”. Do mesmo modo, pode-se ler “tumati”, mas é preciso escrever “tomate”. Pode-se dizer, então, que a língua escrita – na sua dimensão ortográfica – não é exatamente a língua oral, sendo esse um aspecto a ser lembrado no ensino de regras ortográficas, e no ensino da língua de um modo geral.

As regras ortográficas podem ser uma ferramenta útil para os aprendizes, desde que não sejam apenas memorizadas, mas resultado de uso, observação, análise, e novamente uso, do fato em questão, bem orientados pelo trabalho docente.


Verbetes associados: Apropriação do sistema de escrita alfabética, Convenções ortográficas, Fonema, Grafema, Oralidade e escrita , Ortografia, Sistemas de escrita


Referências bibliográficas:
CAGLIARI, L. C. Alfabetização & Linguística. São Paulo: Scipione, 1989.
COSTA VAL, M. G. et al. Avaliação do texto escolar. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.
LEMLE, M. Guia teórico do alfabetizador. São Paulo: Ática, 1987.
MORAIS, A. G. Ortografia: ensinar e aprender. São Paulo: Ática, 1998.

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